Até hoje, a família de Zélio Fernandino de Moraes não sabe explicar ao
certo o problema de saúde que ele teve aos 17 anos. Só sabe dizer que,
por vários dias, o estudante que sonhava seguir carreira na Marinha não
conseguia sequer levantar da cama.
sábado, 6 de julho de 2019
domingo, 3 de junho de 2018
UMBANDA

Zélio Fernandino de Moraes em reunião na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade
Foto: Acervo TENSP / BBCBrasil.com
Preocupada, sua família, uma das mais tradicionais de São Gonçalo, a 25
km do Rio, o levou a inúmeros médicos. Nem o tio do rapaz, o psiquiatra
Epaminondas de Moraes, quis arriscar um diagnóstico. O máximo que uma
"rezadeira" conseguiu foi aconselhá-lo a desenvolver sua mediunidade. Um
dia, Zélio acordou bem disposto e aparentemente curado. Na dúvida, um
amigo sugeriu uma visita à Federação Espírita do Estado do Rio, em
Niterói. Era o dia 15 de novembro de 1908.
Chegando lá, o médium José de Souza, que dirigia a sessão espírita
kardecista, pediu que Zélio sentasse à mesa. A certa altura, espíritos
de caboclos (ancestrais indígenas brasileiros) e pretos velhos (escravos
africanos) começaram a se manifestar. Na mesma hora, o dirigente,
alegando que eram espíritos "atrasados", pediu que se retirassem.
Logo, Zélio foi incorporado por uma entidade que saiu em defesa das
demais: "Se não houvesse ali espaço para espíritos de negros e índios
cumprirem sua missão, ele (espírito) fundaria, já no dia seguinte, um
novo culto na casa de Zélio".
Quando perguntaram seu nome, a entidade respondeu: "Caboclo das Sete
Encruzilhadas". E, em seguida, completou: "Para mim, nunca haverá
caminhos fechados".
"Há várias maneiras de definir a umbanda. Espiritismo abrasileirado é
apenas uma delas. A religião valorizou o papel de caboclos e pretos
velhos como entidades espirituais", explica o antropólogo Emerson
Giumbelli, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
No dia seguinte ao de sua primeira manifestação, 16 de novembro de
1908, o Caboclo das Sete Encruzilhadas voltou a incorporar Zélio de
Moraes. Dessa vez, para traçar as diretrizes da nova religião: vestir
roupas brancas, usar guias de contas coloridas e, entre outras
faculdades mediúnicas, priorizar a incorporação de espíritos.
"Com os que sabem mais, aprenderemos. Aos que sabem menos, ensinaremos.
Mas, a ninguém viraremos as costas", teria dito, na ocasião, Zélio de
Moraes. Por outro lado, proibiu o jogo de búzios, o uso de atabaques e o
sacrifício de animais.
"Um dos princípios básicos da umbanda é jamais fazer o mal. Isso inclui
querer algo que pertença à outra pessoa, interferir no livre-arbítrio
de terceiros ou cobrar para fazer consultas ou atendimentos",
exemplifica Leonardo Cunha, bisneto de Zélio.

Leonardo Cunha dos Santos (bisneto do Zélio) e Lygia Maria
Marinho da Cunha (neta de Zélio) são dirigentes espirituais da Tenda
Espírita Nossa Senhora da Piedade
Foto: Pedro Paulo Figueiredo / BBCBrasil.com
'
Psicólogo do pobre'
Se o dia 15 de novembro entrou para a história como o Dia Nacional da
Umbanda, o 16 de novembro ficou marcado pela fundação da Tenda Espírita
Nossa Senhora da Piedade. A casa situada no número 30 da rua Floriano
Peixoto, em Neves, São Gonçalo, já nem existe mais. Foi demolida em
2011. Hoje, funciona em Cachoeiras de Macacu, a 97 km da capital, e,
pelo menos uma vez por mês, atende uma média de 120 pessoas.
"A umbanda pratica a caridade e não cobra um centavo de ninguém. O
preto velho é o psicólogo do pobre", afirma Fátima Damas, presidente da
Congregação Espírita Umbandista do Brasil.
No Brasil, a liberdade de credo é assegurada desde a primeira
Constituição da República, de 1891. Mesmo assim, a intolerância
religiosa nunca deixou de existir. O Código Penal de 1890, vigente no
ano em que a umbanda foi fundada, criminalizava a prática dos cultos
afros.
Por essa razão, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade foi alvo
constante de batidas policiais. "Meu avô enfrentou preconceito até mesmo
dentro de casa. Sua família era predominantemente católica", relata a
neta, Lygia Maria Cunha.
Zélio de Moraes dirigiu a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade até
1946, quando passou o comando para as filhas Zélia e Zilméa, ambas já
falecidas. Quando ele morreu, em 3 de outubro de 1975, Lygia, sua neta,
tinha 38 anos, e Leonardo, seu bisneto, 11.
Atual dirigente espiritual da Piedade, como a família se refere à tenda
espírita, Lygia conta que seu avô não sabia nadar e até de piscina
tinha medo. No entanto, quando incorporava a entidade Orixá Malet, era
capaz de entrar no mar e arriscar umas braçadas por entre ondas
fortíssimas.
"Da areia, acompanhávamos tudo, apavorados. Já imaginou se a entidade
resolvesse deixá-lo antes de ele estar são e salvo na praia? Felizmente,
isso nunca aconteceu", relata.
Adeptos
O atual presidente da Piedade, Leonardo Cunha, explica que o nome
umbanda só veio muito depois de sua fundação. Originalmente, o nome do
culto era alahbanda - em homenagem à entidade Orixá Malet, que fora
muçulmano em sua encarnação anterior. De origem árabe, Alá ou Alah
significa Deus. Já "banda", palavra coloquial do idioma português do
século 15, é sinônimo de lado. "Umbanda pode ser entendida como Ao lado
de Deus ou Com Deus ao lado", explica.
Segundo dados do Censo de 2010, o número de umbandistas hoje no Brasil,
110 anos depois de sua fundação, chega a 432 mil. Uma queda de 20% em
relação ao Censo de 1991.
Para Fátima Damas, da Congregação Espírita Umbandista do Brasil, esses
números não correspondem à realidade. "Muitos umbandistas não admitem
publicamente que são umbandistas. Por medo ou vergonha, preferem dizer
que são católicos", justifica.
Os casos de intolerância religiosa, segundo a Secretaria de Estado de
Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos (SEDHMI),
aumentaram, só no Rio de Janeiro, 56% em relação ao primeiro trimestre
de 2017. São 25 denúncias entre janeiro e abril contra 16 no mesmo
período do ano passado.
Em alguns casos, vândalos depredam os terreiros, destroem imagens e
fazem pichações: "Fora macumbeiros!", "Não queremos macumba aqui!" e "Só
Jesus expulsa demônio das pessoas!". Em outros, pais, mães, filhos e
filhas de santo são impedidos de vestir branco, usar guias e até de
entoar cânticos.
'Muita religião para pouco devoto'
Dados da Secretaria de Direitos Humanos (SDH), órgão vinculado ao
Ministério dos Direitos Humanos (MDH), revelam que os ataques a
terreiros de umbanda e candomblé, entre outras, não estão restritos ao
Rio. Em 2011, o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) atendeu 15 casos.
Em 2015, foram 556. Ano passado, saltou para 759.
"Há uma teologia que se dedica a ganhar territórios 'para Cristo' e a
enfrentar 'inimigos'. Alguns identificam esses inimigos entre os
praticantes de religiões com elementos espíritas e entendem a metáfora
de 'guerra espiritual' no sentido literal da palavra", analisa
Giumbelli, da UFRGS.
Para o sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo (USP), a
intolerância religiosa nasce do preconceito racial e agrega que "há
muita religião para pouco devoto. Por essas e outras, algumas igrejas
neopentecostais chegam a impor metas de conversão de umbandistas aos
seus pastores".
Em quase 110 anos de fundação, a Tenda Espírita Nossa Senhora da
Piedade sofreu um único caso de vandalismo. Foi nos anos 1980 quando um
invasor, durante um surto psicótico, teria quebrado alguns santos e
ateado fogo no terreiro. As chamas não se alastraram.
Para os dias 15 e 16 de novembro, Luciano avisa que não vai ter festa.
No máximo, bolo com champanhe. "Na umbanda, espírito não desce para
dançar, desce para trabalhar. Nossa vida só tem sentido quando nos
colocamos à disposição de Deus para servir ao próximo", afirma.
domingo, 29 de janeiro de 2017
UMA ENTREVISTA COM UMA SOBRINHA-NETA DO DR. BEZERRA DE MENEZES
D.a
Fausta Bezerra Silva reside num belo casarão da rua General Rodrigues n.°
24, na Estação do Rocha, no Estado da Guanabara. Ê professora aposentada pela
ESCOLA PROFISSIONAL PREFEITO BENTO RIBEIRO e casada com o Sr.
Zeferíno Silva, alto funcionário aposentado da Câmara Federal.
Recebeu-nos irmãmente. Colocou-nos à vontade. O ambiente do seu Lar tem a
quietude de um Templo e infunde respeito e emoção a quem lhe penetra o interior.
Vive o clima superior, porque seus autores oram e vigiam e vivem, na prática,
os Ensinos de Nosso Senhor Jesus Cristo, certamente inspirados nos exemplos
do saudoso Presidente da CASA DE ISMAEL.
O Sr. Zeferino Silva é um velhinho simpático e inteligente mas agnóstico.
Ri, sem maldade, da nossa convicção de Espirita.
Ainda não CAIU EM SI, como acontecera conosco e tem acontecido com
quantos, péla dor ou pelos fatos, científica- mente comprovados, CAEM EM SI
no clima do arrependimento e, vestindo-se de humildade, tudo traduzem das
coisas maravilhosas e santas da Verdade, que Deus lhes reserva.
D.a
Fausta é uma simpática velhinha refletindo mansuetude e bondade nos
olhos e nos gestos. Além do mais, vivendo os seus setenta e quatro anos e
aparentando ter apenas 60, possui um Espírito sensível e os dons da vidência e
audiência. E isto desde criança, motivo por que o Dr. Bezerra de Menezes lhe
dedicara particular estima e a apelidara de FAUSTEZA, — coisa que ninguém o
fizera jamais.
Conversamos, por meia hora, assunto variado.
Dialogamos com o Sr. Zeferino.
Procuramos mostrar-lhe, véladamente, as Vidas Sucessivas justificando as
desigualdades em todos os ângulos de nossa vida.
Espírito delicado e culto, percebeu, incontinente, nossa convicção como fruto
de estudo e sofrimento e calou-se.
Deixou a palavra livre com sua digna esposa.
Ouvimos, então, D.a
Fausta falar por duas horas seguidas.
Ficamos encantado e emocionado com o que nos revelou.
Mentalmente, íamos guardando seus informes, seus casos, suas observações,
seus preciosos esclarecimentos com relação à vida exemplificativa ao seu
bondoso tio e avô.
Soubemos que o Dr. Adolfo Bezerra de Menezes nasceu no RIACHO DO
SANGUE, no Estado do Ceará, na madrugada de 29 de agosto de 1831.
Foram seus pais: o Coronel Antônio Bezerra de Menezes, que era Capitão das
Antigas Milícias e Tenente-Coronel da Guarda Nacional, fazendeiro de grandes
recursos financeiros, e D.° Fabiana de Jesus Maria Bezerra.
Eram verdadeiras almas gêmeas. Dois grandes corações, caritativos por
índole. Traziam da Espiritualidade expressivos lastros de Bondade e Renúncia,
Humildade e Fé.
O ambiente era de emoção.
D.° Fausta sente e também sentimos, entre nós, a presença do formoso
Espírito de Bezerra de Menezes.
Ficamos alguns minutos silenciosos, sentindo intraduzível bem-estar.
Ele, com sua presença, aplaudia nossa visita e aquilo que estávamos colhendode sua vida e de seus venerandos pais.
D.a
Fausta levanta-se.
Vai ao interior de sua casa e, depois de breves momentos, volta com alguns
livros e anotações.
Senta-se e fala-nos:
Aqui estão registados vários Casos Lindos, constantes do livro LOUCURA
SOB NOVO PRISMA, onde ele estuda, como poucos, as obsessões ocasionadas
pelos Espíritos e os meios evangélicos para as melhorar ou solucioná-las; A CASA
ASSOMBRADA, romance de caráter espírita, escrito num estilo familiar e com
um enredo simples e cativante, descrevendo belas verdades dos nossos sertões
nordestinos de há muitos anos; O VALIOSO AUTÓGRAFO, como o publicou a
revista O REFORMADOR e, depois, editado pela Livraria da Federação Espirita
Brasileira com o título — UMA CARTA DE BEZERRA DE MENEZES, cujo original
lhe foi enviado pelo saudoso Poeta Juvenal Galeno. Trata-se, de fato, de valioso
documento, verdadeira Tese Doutrinária, em que, confrontando o Cristianismo e
o Catolicismo à luz do Espiritismo, nos demonstra sua vasta cultura. Dirigiu-a a
seu irmão Germano. Aqui estão, ainda, os apontamentos tirados dos trabalhos do
Dr. Canuto de Abreu, publicados na Revista “METAPSlQUICA”, de São Paulo, e
alguns outros baseados no romance — BEZERRA DE MENEZES, “o Médico dos
pobres”, do Sr. F. Acquaronne.
— Não conheço ainda seu livro (referia-se a nós). Mas sei que registou Lindos
Casos e todos autênticos, porque lhe foram contados pelo culto Sr. Manuel
Quintão, que os ouviu de Pedro Richard, que conviveu, mtimamente, com Bezerra
e dele herdou as qualidades de verdadeiro cristão.
Aqui nesta sala, principalmente, nos anos de 1898 a 1900, ouvi belíssimos
epsódios aã vida de meu querido tio e avô contados pelo meu pai, Dr. Teófilo
Rufino Bezerra de Menezes e pelos queridos amigos, Drs. João Lacerda e Maia
Lacerda. Meu pai era sobrinho e meu avô, Dr. José Joaquim Bezerra de Menezes,
era irmão do Dr. Bezerra, motivo por que sou dele sobrinha e neta.
Guardei, pois, bem na memória e no coração aqueles emocionantes epsódios e,
depois, quando já moça, procurei me inteirar de sua veracidade e, conseguindo,
comecei a votar uma profunda e sincera admiração ao Espírito caridoso do
MÉDICO DOS POBRES.
Certamente sentindo minha sincera admiração, começou a aparecer-me, a
falar-me, possibilitando-me muitas graçasi Somente o chamo quando o problema
é muito grave. O nosso Áureo, aqui presente, foi um beneficiado de suas graças.
De uma feita, apareceu-me aflito, dizendo-me estar vivendo momentos sérios.
Seus problemas eram muitos, morais e financeiros. À proporção que me revelava
alguns, senti a presença do Dr. Bezerra, que me dizia: ele não deve mudar, se o
fizer piorará sua situação espiritual...
Áureo ficou admirado, pois ainda não me havia falado do seu desejo de mudarde casa. Mostrou-se satisfeito, tanto mais quanto me visitara para obter um
conselho sobre o que deveria fazer, se ficar ou sair. A situação estava
complicada. Mas ele havia conseguido dar ao seu lar um clima de defesa depois
de muitos anos de luta. E agora...
Finalmente, passado meses, soube que havia mudado e sua situação espiritual
e mesmo econômica piorou muito... Ultimamente, vem procurando contornar a
situação e vai conseguindo-a, em parte...
Nosso caro irmão Áureo, num riso melancólico, confirma, com um, sinal de
cabeça, o que diz D.a
Fausta.
A querida sobrinha-neta de Bezerra continua seus preciosos informes. Nosso
Áureo possui outros Lindos Casos, mas apenas mais outro lhe contarei, para não
tomar grande e enfadonha minha entrevista. Sua irmã, Maria Pessoa Tavares,
apareceu-lhe, de uma feita, de maneira diferente, falando-lhe coisas esquisitas...
Foi dada como louca. Médicos foram chamados. Remédios lhe foram receitados. E
tudo em vão. Por intermédio de meu genro, Professor Hugo Leite, Áureo me
procurou. Vinha com a fisionomia abatida pelas vigílias realizadas junto à irmã,
que, dia a dia, piorava.
Pedia, com humudaae e fé, vara eu consultar o Espírito do Dr. Bezerra. Seria
uma cariaade imensa que lhe fazia e também à sua irmã e aos seus familiares.
Ficamos os três em concentração, depois de havermos feito a Prece. E o
Espírito de meu caro tio e avô veio e disse:
— Não está louca como vocês pensam. Tem algo espiritual adoecendo-a. A
entidade não sabe o mal que lhe faz. Vamos, por misericórdia da Virgem, tentar
doutriná-la com amor. E vocês tratem do fígado de nossa irmã Maria, porque é
isto que está agravando mais a sua suposta LOUCURA. Daqui há um mês, se Deus
quiser, estará boa.
E de fato, submeteu-se a um tratamento especializado no fígado e, em
seguida, começou a melhorar. Um mês depois estava, totalmente, normalizada,
como está até hoje, com surpresa de seus médicos assistentes...
Aproveitamos uma pausa na palestração utilíssima de D.a Fausta e lhe
perguntamos sobre a veracidade dos Lindos Casos que nos contaram,
principalmente, Manuel Quintão e Dr. Guil- ton e aqui registrados, páginas
adiante. E, além de confirmá- -los, à proporção que deles se inteirava, disse-nos:
— O Caso, por exemplo, do anel de grau, ele o deu, como o Sr. relata, a um
senhor, ralado de sofrimento, à porta da Federação. No consultório da
FARMÁCIA HOMEOPÁTICA CORDEIRO, o que ele deu a uma senhora, mãe, com
uma filha doente, ambos pobres e famintos, foi um envelope com o dinheiro que o
bondoso Cordeiro coletara, na véspera, para dá-lo a D.a
Cândida, a segunda e
também virtuosa esposa do Dr. Bezerra. Essa coleta era resultante das consultas
pagas pelos clientes que se achavam em condições de o fazer. Cada consulta
custava apenas cinco mil réis...Depois de nos contar outros casos lindos de suas anotações, historiou-nos a
vida do caroável Seareiro Espírita, através de sua infância trabalhosa, quando
para o Rio viera ma- tricular-se na Faculdade de Medicina, justamente quando
seus caros pais já se achavam com parcos recursos financeiros.
Rememora-nos a renúncia de Bezerra pelos bens materiais, sua paixão pelo
dever de servir sem ser servido, de ser útil, de amar a seu próximo, sua
preocupação de aliviar-lhe as dores, solucionar-lhe os problemas, dando de si sem
pensar em si.
E cita-nos, a esmo, o seguinte caso para colaborar com seu asserto:
— Quando era Presidente da Companhia de Carris Urbanos, deixava, certo
dia, o consultório dessa Companhia, na rua Sete de Setembro. Eram seis horas
da tarde. Era sempre o último a sair e somente o fazia depois de assistir ao
fecha* mento das portas. Ia descer a via pública, em direção ao Largo São
Francisco, onde iria tomar o bonde para sua casa, quando encontrou um velho
conhecido, que o aborda todo trêmulo e envergonhado:
— Que é isso, meu caro? Que sucedeu com você?
O irmão em sofrimento, com a fisionomia refletindo grande mágoa, conta-lhe
que acabara de perder o filho e que, desempregado e sem recursos, vinha
precisamente para lhe falar...
Bezerra não lhe pede outras explicações. Chamo-o para um canto e dá-lhe a
carteira e sem procurar saber quanto a mesma guardava...
O irmão, emocionado e em pranto, agradece-lhe e parte.
Já instalado no bonde, mete Bezerra os dedos nos bolsos e verifica que está
sem um níquel...
Salta, calmamente, e se dirige a uma casa comercial conhecida sua, ali por
perto, onde pede tresentos réis para a passagem. ..
Assim era Bezerra de Menezes, continuou D.a
Fausta. Concluíra seu Curso de
Medicina em 1856, aos 25 anos de idade. Dois anos depois, casou-se por amor,
com D.a
Maria Cândida de Lacerda. Deste casamento nasceram-lhe dois filhos,
um dos quais morreu muito moço e quando frequentava a Faculdade de Direito de
São Paulo. Em 1863, cinco anos depois, ficou viúvo. E, dentro do seu desalento,
deixava cair do seu coração torturado essas palavras: “As glórias mundanas, que
eu havia conquistado, mais por ELA do que por mim, tomaram-se-me aborrecidas,
senão mesmo odiosas.. " Em 1864, um ano depois, reeleito Vereador, casara-se
em segundas núpcias, com D.a
Cândida Augusta Lacerda Machado, irmã materna
de sua primeira mulher e de quem teve cinco filhos: Hilda, Maria, Evangélina,
Octavio, apelidado de o BARÃO e Francisco, desencarnado, no ano passado, e que
possui um filho de nome Adolfo, servindo no corpo consular da Suíça. Todos os
seus filhos estão desencarnados. O Octavio, o BARÃO, é justamente aquele com
o qual o senhor se encontrou em Miguel Pereira, como me contou e relata em seu
livro.O Dr. Bezerra viveu aqui perto de nós, ali na rua Vinte e Quatro de Maio,
esquina aà rua, hoje, Filgueiras Uma. Mais adiante está a Farmácia
HOMEOPÁTICA FILGUEIRAS LIMA, que no seu tempo se chamava CORDEIRO.
No lugar de sua casa, estão hoje a Padaria Iolanda e o prédio dos Correios e
Telégrafos.
Chegava da cidade, por volta das 14 horas, e ia, ali, atender aos seus
inúmeros clientes, na maioria pobres, que nada lhe davam senão a estima e a
bênção das Preces. O mesmo havia feito na parte da manhã no seu consultório da
rua Primeiro de Março. Muitas vezes, era chamado para atender aos pobres do
morro, na maioria mulheres em estado de gestação. A todos dava o remédio da
sua bondade exteriorizada nos abraços, no olhar e nos conselhos. Jamais me
esquecerei de sua voz e do seu olhar. Quando falava e olhava, emocionava. Em
tudo punha algo do coração formoso. Tive esta graça, qual a de merecer muitos
afagos de suas mãos e de seus olhos verdes e refletindo a candura das crianças.
Quando desencarnou, contava eu doze anos de idade. No dia 10 de abril de
1900, às vésperas de seu desencarne, pedi à minha mãe para me levar à sua casa.
Sabia-o gravemente enfermo. Aqui e pelos morros havia um clima ae tristeza.
Todos sentíamos que íamos perder o nosso grande Amigo, o querido Médico dos
pobres, o Anjo encarnado da caridade, um dos raros discípulos ae Jesus, quando
o Espiritismo codificado contava seus 43 anos de consolações.
Ainda me lembro, emocionada.
Penetrei em seu quarto ornado de uma cama e outros móveis simples e senteime
numa cadeira junto à sua cabeceira.
OUiou-me e sorriu. Não falava. Somente, minutos antes de seu desencarne,
voltou-lhe a voz e mesmo assim, como desejara, para orar à Virgem, de Quem foi
devoto sincero e humilde e agradecer-Lhe os socorros, a assistência, o amor
imenso de MSe querida.
Aquela cadeira tomou-se histórica.
Desejei guardá-la e não o consegui.
Senti muito.
Nela sentaram-se infinidades de pessoas, ricas e pobres, sãs e doentes,
visitando-o nos seus últimos momentos.
Diante da serenidade, do testemunho que nos deu de resignação na sua
enfermidade, congestão cerebral agravada com a anasarca, todos choravam,
evangelizados com aquela página de luz e dor, de humildade e fé.
O ambiente que possibilitou, mesmo naquela conjuntura, foi de emoção e cura,
até para ãj p|jg doentes, do corpo e da alma, a procuravam no leito da agonia.
E saíam, dali, melhorados.
Aquela cadeira registou prantos e milagres, vibrações sinceras e piedosos
agradecimentos.
No dia seguinte, às 11 horas e meia da manhã, como um justo, entregou sua alma ao Criador.
Seu enterro foi uma apoteose.
Gente dos morros, da cidade e dos subúrbios, homens e mulheres, levaramlhe
o corpo, a pé, daqui até ao cemitério São Francisco Xavier, no Caju.
Está enterrado logo na entrada, ao lado direito da Capela.
Há sempre flores no seu túmulo.
Flores aos corações agradecidos ao Apóstolo da Bondade nas terras do Brasil!
• o
D.a
Fausta terminou de falar.
Um silêncio se fez.
E a música do pranto, doce porque saudoso, enchia o ambiente de algo
diferente.
Um bem-estar imenso sentíamos todos.
Levantamos.
Beijamos, respeitosa e agradecidamente, as mãos da veneranda sobrinha-neta
do querido Kardec brasileiro.
Em seguida, abraçamos seu digno esposo, Sr. Zeferino Silva, também
agradecida e fraternalmente.
Cumprimentamos sua prendada filha Otília e acarinhamos sua netinha Maria
Helena.
Despedimo-nos do prezado irmão Áureo, desejando-lhe que Jesus lhe pagasse
em bênção o bem que nos proporcionou.
E saíamos trazendo flores no coração, flores do coração do Apóstolo
brasileiro.
Cá fora, a tarde caía aos poucos.
Um sol adolescente sumia no horizonte.
Eram, justamente, 18 horas; era a Hora do Ângelus. Geraldo de Aquino, pela
Rádio Copacabana, dizia para os céus do Brasil a Prece da AVE-MARIA!
Ajoelhamos o coração e entramos na onda feliz da Hora Sagrada e
gratulatória Àquela que é a Mãe das mães e a Quem Bezerra de Menezes sempre
se dirigiu e se dirige, como somente ele sabia e sabe orar, na linguagem do
coração e do pranto, a favor de todos nós, seus irmãos em provas remissivas, na
glória do BOM COMBATE, com Jesus e por Jesus, em busca do Amor único de
Deus, Pai e Criador!
Rio, 9 de agosto de 1962.
sábado, 21 de janeiro de 2017
Masturbação á luz do Espiritismo
Pelo Espírito Eugênia por meio da mediunidade de Benjamim Teixeira
Pergunta – Eugênia, seria abusivo perguntar sobre masturbação?
Resposta – Claro que não. A forma de me perguntar já revela a necessidade de se ventilar a temática. Tudo deve ser falado, sob a perspectiva da Espiritualidade, principalmente o que é foco de tabu, porque, então, os automatismos neuróticos e destrutivos, bem como as fixações culturais e sociais, agem mais livremente a prejuízo de comunidades e indivíduos.
Pergunta – No passado, Eugênia, tratava-se a masturbação como pecado ou como desequilíbrio que até poderia causar distúrbios mentais e físicos. A medicina (auxiliada pela psicologia e pela sexologia) eliminou os fundamentos de tais crendices populares (que tiveram muito apoio de gente instruída, em tempos idos), mas, no meio espírita, ainda se considera a masturbação como vampirismo ou desvio de função das energias sexuais, um desperdício, qual se todo ato masturbatório indicasse uma queda em tentação. Poderia nos falar algo sobre estas considerações?
Resposta – Sim. É gritantemente necessário que o postulado básico de acompanhar a ciência seja lembrado entre aqueles que desejam, sinceramente, desposar o Espiritismo como filosofia de vida. Apegar-se a velhos conceitos, por tradição, por medo de enfrentar o novo ou por receio de ser plenamente responsável pelos próprios atos, é de tal modo descompassado com a modernidade, que nos eximimos de expender mais comentários a respeito. Importante lembrar que médiuns acabam filtrando, inconscientemente, o pensamento das entidades que se manifestam por seu corpo mental, de modo que refrações sutis e graves podem se dar (e se dão sempre, em algum nível). Eis por que a vigilância deve ser acentuada, sobremaneira quando condicionamentos culturais e convenções muito cristalizadas estão envolvidos.
O que tem dito a ciência sobre o assunto? Que a masturbação é algo natural e até desejável para o indivíduo adulto; e que, mesmo entre aqueles que já têm a vida afetiva disciplinada nos corredores da educação conjugal, é compreensível aconteça o fenômeno do onanismo (para os dois gêneros), que se revela mesmo imperioso, amiúde, quando os ritmos sexuais dos parceiros não se alinham, a fim de que um não incomode o outro na satisfação de suas necessidades de fundo psicofisiológico, nem alguém se frustre na quota de libido que lhe não seja possível imediatamente canalizar para atividades não-sexuais, sem gerar recalques indesejáveis.
Seja na tenra idade, seja em idade avançada, para solteiros ou casados, hétero ou homossexuais, o fenômeno masturbatório pode ser comparado à ida ao banheiro para a excreção dos detritos alimentares. Há abusos, sem dúvida, como os há em tudo na existência humana. Os ritmos sexuais podem ser exacerbados, na compulsão, ainda que se não tenha parceiro para a prática. Cada caso é um caso, e, somente com profundo autoconhecimento, a criatura descobre o sistema apropriado ao seu modo de ser, em função do bem-estar geral, da produtividade, da criatividade e do sentimento de equilíbrio íntimo, que constituem alguns dos resultados da vida sexual resolvida.
Quanto ao vampirismo, pode acontecer também na vida afetiva a dois, sempre que os desajustes da perversão e da promiscuidade invoquem, para a alcova do casal, presenças extrafísicas de baixo calão vibratório, pelo próprio diapasão de desequilíbrio em que se expressam em seu momento de intimidade.
Pergunta – Que bom, Eugênia! Creio que estas suas colocações esclarecedoras vão ajudar muitas pessoas. Entretanto, você aludiu a “perversão”, e este conceito me parece muito amplo e difuso, pelo mesmo motivo de os preconceitos adentrarem este departamento valorativo. Temos muita dificuldade em aceitar e conviver com nosso lado animal, e muitos são os que têm vergonha e não se soltam em funções elementares de sua própria fisiologia, tudo tendo como sinal de depravação, primitivismo e imoralidade. O que você quis dizer por “perversão”? Digo, porque, inclusive, na temática “masturbação”, está em jogo, normalmente, o fator “fantasia”, que pode incluir itens que não sejam desejados também na relação concretizada a dois – estou certo?
Resposta – O tema é muito complexo, e, sem dúvida, não o esgotaremos nesta nossa primeira fala a respeito. Por outro lado, não somos autorizados por Nossos Maiores, ainda, a discorrer abertamente sobre o assunto, porque mentes menos amadurecidas, levianas, despreparadas para nos ouvir, poderiam fazer mau uso de nossas afirmações. O que podemos dizer é que tudo que lese física, emocional ou moralmente alguém pode ser enquadrado no capítulo “perversão”, ao passo que tudo quanto promova o bem-estar biopsíquico, o crescimento psicológico e a boa relação entre as criaturas não pode ser considerado como distúrbio moral ou patologia psíquica.
O quesito “fantasia” é ainda mais intrincado, porque, freqüentemente, melhor que se liberem certos conteúdos indesejados (e ainda não de todo domesticáveis) da psique, por meio das ferramentas imagéticas, do que fazê-los colapsarem no próprio comportamento, em surtos que se chamam, em psicologia junguiana, de “possessão pela sombra” (*). Os princípios de civilização, entretanto, devem sempre reger tais processos mentais, na promoção da educação e da melhoria progressiva dos indivíduos, dos mais ínfimos aos maiores gestos, dos mais secretos aos públicos. A gerência de tais impulsos – que, como disse, não podem, em sua totalidade, ser de pronto sublimados – corre por conta da responsabilidade de cada um, em função do próprio e do bem comum.
Pergunta – Algo mais desejaria dizer, por ora?
Resposta – Que se procure, em tudo, o ponto de vista do bom senso, do equilíbrio, da visão de conjunto, e dificilmente se incorrerá em erros graves de conduta, seja consigo mesmo, seja nas relações interpessoais.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
Vivo como quero, ou como querem?
Embora o homem venha conquistando ao longo dos séculos, um avanço tecnológico excepcional, nada parece ser suficiente para acalmar seu coração, e ele segue sua jornada vivenciando conflitos íntimos terríveis.
O homem é capaz de bombardear o núcleo do átomo.
Mas não logra implodir o próprio orgulho.
O homem com a ajuda de equipamentos modernos é capaz de mergulhar a grandes profundidades no oceano.
Não obstante, não implementa o grande mergulho em si mesmo, e não passa de ilustre desconhecido de si próprio.
O homem lança sondas espaciais de encontro aos cometas, com o desejo de estudar a constituição íntima da matéria, visando descobrir a origem do universo.
Todavia, tem enormes dificuldades em abraçar seu semelhante.
Somos criaturas paradoxais, desejamos conquistar o mundo, mas somos incapazes de realizar as grandes conquistas afetivas, que certamente nos levariam a experimentar a paz.
No campo afetivo, temos mais facilidade em aceitarmos a opinião dos outros, do que a dos nossos familiares.
Com os outros a paciência, com a família a contenda.
Com estranhos a educação, com a família a irritabilidade.
A vida está difícil, ninguém dúvida das grandes transformações pelas quais a humanidade passa.
Precisamos reavaliar as nossas atitudes, é fundamental que iniciemos o mergulho intransferível e inadiável em nosso ser.
Não podemos continuar vivendo a vida, como reféns dos fatos que acontecem a nossa volta.
Viver a vida através dos fatos gerados pelos outros, é viver de forma alienada com relação a si mesmo.
Nossa vida deve ser determinada pelos acontecimentos gerados a partir de nossas escolhas e decisões.
Somos os construtores de nosso destino, estamos construindo a nossa vida? Ou os outros é que determinam nossa forma de viver?
Urge que nos auto conheçamos.
Como estou reagindo diante desse ou daquele acontecimento?
Minhas opiniões são minhas mesmo, baseadas em minha capacidade de pensar? Ou eu sempre opino de acordo com os critérios alheios?
Minhas respostas aos fatos que acontecem, são determinadas pela emoção, ou pela razão?
Sou mais instintivo, ou racional?
Buscar o equilíbrio entre esses aspectos comportamentais nos facultará, uma melhor qualidade de vida.
Não adianta conquistar o espaço, sem antes se auto conhecer.
Pessoas há que passam pela vida sem viver, pois transitam pelo mundo, como reféns das escolhas alheias.
Afinal, eu escolho a vida que quero ter, ou os outros escolhem como devo viver?
Adeilson Salles
terça-feira, 16 de agosto de 2016
O passe ao longo dos séculos
A transfusão de energias fisiopsíquicas, o passe ou a imposição de mãos, vem sendo aplicada ao longo de milênios para aliviar, confortar, consolar e curar. Os testemunhos mais impressionantes e inigualáveis foram os de Jesus quando curou doentes, cegos e leprosos há mais de dois mil anos.
Antes do Cristo, o Velho Testamento registra em Deuteronômio (34:9):
Ora, Josué, filho de Num, estava cheio do espírito de sabedoria, porque Moisés tinha imposto as suas mãos sobre ele. De modo que os filhos de Israel lhe obedeceram e fizeram o que o Senhor tinha ordenado a Moisés.
No Novo Testamento, dentre os inúmeros fatos relatados, ressaltamos Mateus (8:1 a 3):
Depois que desceu do monte, muitas turbas o seguiram. Eis que um leproso, aproximando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, se quiseres, podes purificar-me.
E Jesus estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; seja purificado! E imediatamente sua lepra foi purificada.
Na Idade Média, Paracelso – Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, (1493-1541) – médico, alquimista, físico, astrólogo e ocultista suíço-alemão, já difundia o poder e os benefícios do magnetismo. Mais tarde, Franz Anton Mesmer (1733-1815) destacou-se pelos estudos, divulgação e aplicação do magnetismo animal. Seus ensinos passaram à posteridade com o nome de mesmerismo.
No período contemporâneo, após 1879, Joseph Banks Rhine (1895-1980), parapsicólogo estadunidense, demonstrou com seus estudos e experiências acadêmicas que a mente pode agir sobre a matéria modificando-a e, inclusive, produzindo efeitos curativos.
No entanto, a Doutrina Espírita, o Evangelho de volta pela segunda vez, desde sua codificação, em 1857, estuda, explica e utiliza os fluidos magnético-espirituais como instrumento de auxílio espiritual, esclarecendo que o processo de cura envolve ações mais complexas, algumas relacionadas à lei de causa e efeito e outras à capacidade do enfermo em se beneficiar desses fluidos. Ensina, também, que a doença é sempre o reflexo de certas ações cometidas pelo Espírito nas inúmeras reencarnações e esclarece, ainda, que as enfermidades deixarão de existir quando o Espírito estiver curado.
Desse modo, instrui-nos Emmanuel:
Consagra-te à própria cura, mas não esqueças a pregação do reino divino aos teus órgãos. Eles são vivos e educáveis.
Sem que teu pensamento se purifique e sem que a tua vontade comande o barco do organismo para o bem, a intervenção dos remédios humanos não passará de medida em trânsito para a inutilidade.1
REFERÊNCIA:
1XAVIER, Francisco C. Segue-me. Pelo Espírito Emmanuel. Editora O CLARIM. cap. A cura própria.
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Religião e religiosidade
No caleidoscópio do comportamento humano há, quase sempre, uma grande preocupação por mais parecer do que ser, dando origem aos homens-espelhos, aqueles que, não tendo identidade própria, refletem os modismos, as imposições, as opiniões alheias. Eles se tornam o que agrada às pessoas com quem convivem, o ambiente que no seu comportamento neurótico se instala. Adota-se uma fórmula religiosa sem que se viva de forma equânime dentro dos cânones da religião. É a experiência da religião sem religiosidade, da aparência social sem o correspondente emocional que trabalha em favor da auto-realização, O conceito de Deus se perde na complexidade das fórmulas vazias do culto externo, e a manifestação da fé íntima desaparece diante das expressões ruidosas, destituídas dos componentes espirituais da meditação, da reflexão, da entrega. Disso resulta uma vida esvaziada de esperança, sem convicção de profundidade, sem madureza espiritual.
A religião se destina ao conforto moral e à preservação dos valores espirituais do homem, demitizando a morte e abrindo-lhe as portas aparentemente indevassáveis à percepção humana.
Desvelar os segredos da vida de ultratumba, demonstrar-lhe o prosseguimento das aspirações e valores humanos, ora noutra dimensão dentro da mesma realidade da vida, é a finalidade precípua da religião. Ao invés da proibição castradora e do dogmatismo irracional, agressivo à liberdade de pensamento e de opção, a religião deve favorecer a investigação em torno dos fundamentos existenciais, das origens do ser e do destino humano, ao lado dos equipamentos da ciência, igualmente interessada em aprofundar as sondas das pesquisas sobre o mundo, o homem e a vida.
A fim de que esse objetivo seja alcançado, faz-se indispensável a coragem de romper com a tradição — rebelar-se contra a mãe religião — libertando-se das fórmulas, para encontrar a forma da mais perfeita identificação com a própria consciência geradora de paz. Tornar-se autêntico é uma decisão definidora que precede a resolução de crescer para dar-se. O desafio consiste na coragem da análise de conteúdo da religião, assim como da lógica, da racionalidade das suas teses e propostas. Somente, desta forma, haverá um relacionamento criativo entre o crente e a fé, a religiosidade emocional e a religião. Essa busca preserva a liberdade íntima do homem perante a vida, facultando-lhe um incessante crescimento, que lhe dará a capacidade para distinguir o em que acredita e por que em tal crê, sustentando as próprias forças na imensa satisfação dos seus descobrimentos e nas possibilidades que lhe surgem de ampliar essas conquistas.
Já não se torna, então, importante a religião, formal e circunspecta, fechada e sombria, mas a religiosidade interior que aproxima o indivíduo de Deus em toda a Sua plenitude: no homem, no animal, no vegetal, em a natureza, nas formas viventes ou não, através de um inter-relacionamento integrador que o plenifica e o liberta da ansiedade, da solidão, do medo. As suas aspirações não se fazem atormentadoras; não mais surge a solidão como abandono e desamor, e dilui-se o medo ante uma religiosidade que impregna a vida com esperança, alegria e fé. O germe divino cresce no interior do homem e expande-se, permitindo que se compreenda o conceito paulino, que ele já não vivia, “mas o Cristo” nele vivia.
A personalidade conflitante no jogo dos interesses da sociedade cede lugar à individualidade eterna e tranqüila, não mais em disputa primária de ambições e sim em realizações nas quais se movimenta. Os outros camuflam a sua realidade e vivem conforme os padrões, às vezes detestados, que lhes são apresentados ou impostos pela sua sociedade. O grupo social, porém, rejeita-os, por sabê-los inautênticos, no entanto os aplaude, porque eles não incomodam os seus membros, fazendo-os mesmistas, iguais, despersonalizados, desestruturados. Por falta de uma consciência objetiva — conhecimento dos seus valores pessoais, controle das várias funções do seu organismo físico e emocional, definição positiva de atitudes perante a vida —, não têm a coragem ética de ser autênticos, padecendo conflitos a respeito do senso de responsabilidade e de liberdade, característico do amadurecimento, que se poderá denominar como uma virtude de longo curso. Não se trata da coragem de arrostar conseqüências pela própria temeridade, mas do valor para enfrentar-se a si mesmo, gerando um relacionamento saudável com as demais pessoas, repetindo com entusiasmo a experiência maisucedida, sem ataduras de remorso ou lamentação pelo fracasso. E saber retirar do insucesso os resultados positivos, que se podem transformar em alavancas para futuros empreendimentos, nos quais a decisão de insistir e realizar assumem altos níveis éticos, que se tornam desafios no curso do processo evolutivo.
Para que o ânimo robusto possa conduzir às lutas exteriores, faz-se necessária a autoconquista, que torna o indivíduo justo, equilibrado, sem a característica ansiedade neurótica, reveladora do medo do futuro, da solidão, das dificuldades que surgem.
É preciso que o homem se arrisque, se aventure, mesmo que esta decisão o faça ansioso quanto ao seu desempenho, aos resultados. Ninguém pode superar a ansiedade natural, que faz parte da realidade humana, desde que não extrapole os limites, passando a conflito neurótico.
Por atavismo ancestral o homem nasce vinculado a uma crença religiosa, cujas raízes se fixam no comportamento dos primitivos habitantes da Terra. Do medo decorrente das forças desorganizadas das eras primeiras da vida, surgiram as diferentes formas de apaziguar a fúria dos seus responsáveis, mediante os cultos que se transformariam em religiões com as suas variadas cerimônias, cada vez mais complexas e sofisticadas. Das manifestações primárias com sacrifícios humanos, até as expressões metafísicas, toda uma herança psicológica e sociológica se transferiu através das gerações, produzindo um natural sentimento religioso que permanece em a natureza humana.
Ao lado disso, considerando-se a origem espiritual do indivíduo e a Força Criadora do Universo, nele permanece o germe de religiosidade aguardando campo fecundo para desabrochar.
Expressa-se, esse conteúdo intelecto-moral, em forma de culto à arte, à ciência, à filosofia, à religião, numa busca de afirmação-integração da sua na Consciência Cósmica. A força primitiva e criadora, nele existente como uma fagulha, possui o potencial de uma estrela que se expandirá com as possibilidades que lhe sejam facultadas. Bem direcionada, sua luz vencerá toda a sombra e se transformará na energia vitalizadora para o crescimento dos seus valores intrínsecos, no desdobramento da sua fatalidade, que são a vitória sobre si mesmo, a relativa perfeição que ainda não tem capacidade de apreender.
Na execução do programa religioso, a maioria das pessoas age por convencionalismo e conveniência, sem a coragem de assumir as suas convicções, receosas da rejeição do grupo.
Adotam fórmulas do agrado geral, que foram úteis em determinados períodos do processo histórico e evolutivo da sociedade e, não obstante descubram novas expressões de fé e consolação, receiam ser consideradas alienadas, caso assumam as propostas novas que lhes parecem corretas, mas não usuais, e sim de profundidade.
Afirmou um monge medieval que todo aquele que vive morrendo, quando morre não morre”, porque o desapego, o despojar das paixões em cada morrer diário, liberta-o, desde já, até que, quando lhe advém a morte, ele se encontra perfeitamente livre, portanto, não morto, equivalente a vivo.
A religiosidade é uma conquista que ultrapassa a adoção de uma religião; uma realização interior lúcida, que independe do formalismo, mas que apenas se consegue através da coragem de o homem emergir da rotina e encontrar a própria identidade.
quarta-feira, 22 de junho de 2016
A ESQUIZOFRENIA PODE SER TRATADA NA DIMENSÃO DO ESPÍRITO
A esquizofrenia apresenta um conjunto de sintomas bastante diversificado e complexo, sendo, por vezes, de difícil compreensão. Pode surgir e desaparecer em ciclos de recidivas e remissões. Hoje, é encarada, não como uma doença única, mas, como um grupo de patologias, atingindo todas as classes sociais e grupos humanos. Geralmente, o diagnóstico tem mostrado níveis de confiabilidade, relativamente baixos ou inconsistentes. Explicando, aqui, a esquizofrenia não é a dupla pessoalidade, pois é muito mais ampla que isso e não há motivos de incluir, nela, os Transtornos de Personalidade Múltipla.Em 2004, no Japão, o termo japonês para esquizofrenia foi alterado de Seishin-Bunretsu-Byo (doença da mente dividida) para Togo-shitcho-sho (desordem de integração). Em 2006, ativistas no Reino Unido, sob o jargão de Campanha para a Abolição do Rótulo de Esquizofrenia, defenderam semelhante rejeição do diagnóstico de esquizofrenia e uma abordagem diferente para a compreensão e tratamento dos sintomas associados a ela.
Coube ao suíço Eugen Bleuer, em 1911, a criação do termo "esquizofrenia" significando uma dissidência entre pensamento, emoção e comportamento (esquizo significa cisão e frenia quer dizer mente). É uma doença crônica que atinge, aproximadamente, 60 milhões de pessoas do planeta (1% da população mundial), sendo distribuída de forma igual pelos dois sexos. A diagnose da doença tem sido criticada como desprovida de validade científica ou confiabilidade, e, em geral, a validade dos diagnósticos psiquiátricos tem sido objeto de críticas mais amplas. Uma alternativa sugere que os problemas com o diagnóstico seriam mais bem atendidos se de dimensões individuais fossem, ao longo das quais todos variam, de tal forma, que haveria um espectro contínuo, em vez de um corte distinto entre normal e doente. Geralmente, o esquizofrênico não é violento ou perigoso. Fora da crise, é uma pessoa como qualquer outra.
Porém, alguns poucos, quando em crise, tornam-se agressivos, verbal ou fisicamente, pois os delírios ou as alucinações podem fazer com que se sintam ameaçados.
Não há sintomas determinantes que possibilitem um diagnóstico preciso, de imediato. Tanto pode começar, repentinamente, e eclodir numa crise exuberante, como começar, lentamente, sem apresentar mudanças extraordinárias, e somente depois de anos surgir uma crise característica. Os sintomas podem ser confundidos com "crises existenciais", "revoltas contra o sistema", "alienação egoísta", uso de drogas, etc. O delírio de identidade (achar que é outra pessoa) é a marca típica de um doente. É, com frequência, relacionada com o mendigo que deambula pelas ruas, que fala sozinho, com a mulher que aparece na TV, dizendo ter outros álteres, e com o "louco" que aparece nas telenovelas e nos filmes. Foi, durante muitos anos, sinônimo de exclusão social, e o diagnóstico de esquizofrenia significava internação em hospitais psiquiátricos (manicômios) ou asilos, como destino "certo", onde os pacientes ficavam durante vários anos.
Manifesta-se, habitualmente, na parte final da adolescência ou no início da vida adulta. Afirma-se que os primeiros sinais e sintomas de esquizofrenia são traiçoeiros. Os primeiros "sinais" de sossego/calma e afastamento, visíveis num adolescente, normalmente, passam despercebidos, como não sendo sinais de alerta, pois, considera-se o fato de que "é, apenas, uma fase" por que passam os jovens. É importante, porém, que se diga o quanto é difícil interpretar esses comportamentos, associando-os à idade. A sintomatologia esquizofrênica se apresenta demasiada abrangente, sendo uma síndrome com grande componente fisiológico, com a presença marcante das alucinações e dos delírios. O comportamento, frequentemente, fica condicionado às ideias delirantes paranoides e às alucinações auditivo-verbais que os doentes, geralmente, apresentam. Pouco se sabe sobre essa doença e, ante o desafio terapêutico, o máximo que se consegue é obter controle dos sintomas com os antipsicóticos. Faz, apenas, um pouco mais de 10 anos que a Organização Mundial de Saúde editou critérios objetivos e claros para a realização do diagnóstico da esquizofrenia. As causas do processo patogênico são um mosaico: a única coisa evidente é a constituição pluricausal da doença. Isso inclui
mudanças na química cerebral [a atividade dopaminérgica é muito elevada nos indivíduos esquizofrênicos], fatores genéticos e mesmo alterações estruturais.
Na atualidade, alguns neurotransmissores vêm sendo colocados na implicação da fisiopatologia dessa doença, tais como a serotonina e a noradrenalina. Do ponto de vista fisiológico, e apesar das grandes descobertas já realizadas até aqui, no campo dos mecanismos etiopatogênicos, é preciso considerar que o arsenal, ainda, não se esgotou. Isso porque, afora as contribuições psicossociais, há que se levar em consideração o Espírito imortal, agente causal fundamental.
Segundo Jung, "A investigação da esquizofrenia constitui uma das tarefas mais importantes da psiquiatria futura. O problema encerra dois aspectos: um fisiológico e um psicológico... "(1) É importante frisar que a Esquizofrenia tem cura. Até bem pouco tempo, pensava-se que era incurável e que se convertia, obrigatoriamente, em uma doença crônica e para toda a vida. Atualmente, entretanto, sabe-se que uma porcentagem de pessoas que sofre desse transtorno pode recuperar-se por
completo e levar uma vida normal, como qualquer outra. Algumas, com quadros mais graves, apesar de dependerem de medicação, chegam a melhorar até o ponto de poderem desempenhar bem seu ofício, casar e constituir família. O matemático norte-americano, John Nash, que, em sua juventude, sofria de esquizofrenia, conseguiu reverter sua situação clínica e ganhar o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas, em 1994.
Percebe-se, atualmente, certo conflito entre a ala conservadora da Psiquiatria e o Espiritismo, que tomou vulto entre nós, em virtude do crescimento do movimento espírita brasileiro. Na proporção em que o conceito de matéria se pulverizou nas mãos dos físicos, e atingiu o plano da física quântica, verificou-se uma nova revolução copernicana, no que tange à concepção do homem integral. Hoje, há grande número de psiquiatras espíritas que estabelece o diálogo entre corpo e espírito.
A propósito, as doenças são do corpo ou da alma? Encontramos, em "O Livro dos Espíritos", parte II, capítulo VII, que "a matéria é apenas o invólucro do Espírito. Unindo-se ao corpo, o Espírito conserva os atributos de natureza espiritual; que o exercício das faculdades do Espírito depende dos órgãos que lhes servem de instrumento." (2) Traz o Espírito certas pré-disposições ao renascer. O princípio das faculdades está no Espírito e não nos órgãos. Na visão espírita, "esquizofrênicos"são Espíritos sujeitos a uma punição. Sofrem por habitarem corpos, cujos órgãos comprometidos os impedem de se manifestarem plenamente.
As enfermidades fisiopsíquicas são efeitos e não causas: Tanto as distonias mentais quanto as doenças orgânicas expressam os resultados de ações desequilibradas do Espírito, cuja conduta negativa prejudica, primeiramente, o próprio autor, abrindo zonas mórbidas em seu psiquismo, refletindo-se no seu perispírito e registrando-se no corpo físico em reencarnações posteriores. "A mente transmite ao carro físico, a que se ajusta durante a encarnação, todos os seus estados felizes ou infelizes,equilibrando ou conturbando o ciclo de causa e efeito..."(3) Portanto, éuma patologia que guarda a sua origem profunda no Espírito quedelinquiu. É mister levar em conta a influência negativa, através da obsessão, o que contribui para o agravamento do quadro e para o surgimento de outras disfunções características do transtorno. Por isso mesmo, é preciso vê-la como sendo um processo misto de natureza espiritual, fisiológica, obsessiva e com influências psicossociais.
A divisão da mente, a diluição da memória, o afastamento da realidade parecem denunciar uma espécie de nostalgia psíquica que determina a inadaptação do espírito à realidade atual. Podem ocorrer casos típicos de auto-obsessão nas modalidades variáveis da Esquizofrenia. Os casos se agravam com a participação de entidades obsessoras, geralmente atraídas pelo estado dos pacientes. Este é motivo relevante para a prática da desobsessão.
Psiquiatria e Espiritismo podem ajudar-se, mutuamente, ao que parece, em futuro bem próximo. Não há razão para que a Psiquiatria condene os processos espíritas no tratamento dos casos de obsessão e auto-obsessão. É muito importante ampliar o entendimento das causas originais da esquizofrenia e considerar imprescindível o tratamento espiritual [desobsessão, passe, água fluidificada, oração] oferecido pela Doutrina Espírita, com base nos ensinamentos do Cristo, que, um dia, inevitavelmente, constará nas propostas científicas para o tratamento de todas as doenças humanas.
Jorge Hessen
E-Mail: jorgehessen@gmail.com
Site: http://jorgehessen.net
FONTES:
(1)Jung, Carl Gustav. Psicogênese das Doenças Mentais, RJ: Editora Vozes, 1999
(2)Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed. FEB , 1999, parte II, capítulo VII
(3)Xavier, Francisco Cândido e Vieira Waldo. Evolução em Dois Mundos, Ditado pelo Espírito André Luiz, RJ: Ed. FEB 2003
sábado, 19 de março de 2016
Política
O sincero discípulo de Jesus está investido de missão mais sublime, em face da tarefa política saturada de lutas materiais. Essa é a razão por que não deve provocar uma situação de evidência para si mesmo nas administrações transitórias do mundo. E, quando convocado a tais situações pela força das circunstâncias, deve aceita-las não como galardão para a doutrina que professa, mas como provação imperiosa e árdua, onde todo êxito é sempre difícil. O espiritista sincero deve compreender que a iluminação de um mundo, salientando-se que a tarefa do Evangelho, junto das almas encarnadas na Terra, é a mais importante de todas, visto constituir e consolar e instruir, em Jesus, para que todos mobilizem as suas possibilidades divinas no caminho da vida. Trocá-la por um lugar no banquete dos Estados é inverter o valor dos ensinos, porque todas as organizações humanas são passageiras em face da necessidade de renovação de todas as fórmulas do homem na lei do progresso universal, depreendendo-se daí que a verdadeira construção da felicidade geral só será efetiva com bases legítimas no espírito das criaturas.
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do livro O consolador, pelo espírito Emmanuel
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
APOMETRIA (Viagem Astral), CORRENTE MAGNÉTICA E CROMOTERAPIA, por DIVALDO FRANCO
O médico carioca residente em Porto Alegre desde os anos 50, Dr. José Lacerda, espírita que era então, começou a realizar atividades mediúnicas normais numa pequena sala de Hospital Espírita de Porto Alegre e ali realizou investigações pessoais que desaguaram no movimento denominado Apometria.
Não irei entrar no mérito nem no estudo da Apometria, porque eu não sou apômetra: eu sou espírita, mas o que posso dizer é que a Apometria, segundo os seus próprios seguidores, não é Espiritismo. Suas práticas estão em total desacordo com as recomendações de “O Livro dos Médiuns”.
A presunção de alguns chegou a afirmar que a Apometria é um passo avançado ao Movimento Espírita e que Allan Kardec encontra-se totalmente ultrapassado, já que sua proposta era para o século XIX e parte do século XX, e que a Apometria é o degrau mais evoluído. A prática e os métodos violentos de libertação dos obsessores que este e outros métodos correlatos apresentam, a mim me parecem tão chocantes que me fazem recordar da lei de talião, que já foi suavizada por Moisés, com o código legal, e que Jesus sublimou através do amor.
De acordo com aqueles métodos, quando as entidades são rebeldes os doutrinadores, depois de realizarem uma contagem cabalística ou um gestual muito específico, as expulsam com violência para o magma da Terra, substancia ainda em ebulição do nosso planeta, ou as colocam em cápsulas espaciais que são disparadas para o mundo da erraticidade.
Não iremos examinar a questão esdrúxula desse comportamento, mas se eu, na condição de espírito imperfeito que sou, chegasse desesperado num lugar pedindo misericórdia e apoio à minha loucura, e outrem, o meu próximo, me exilasse para o magma da Terra, para eu experimentar a dureza de um inferno mitológico, ou ser desintegrado, ou se me mandassem expulso da Terra numa cápsula espacial, renegaria aquele Deus que inspirou esse adversário da compaixão.
A Doutrina Espírita, baseada no ensino de Jesus, centraliza-se no amor e todas essas práticas novas, das mentalizações, das correntes mento-magnéticas, psicotelérgicas, que, para nós, espíritas, merecem todo respeito, mas não tem nada a ver com Espiritismo. O mesmo se dá com as práticas da Terapia de Existências Passadas realizadas dentro da casa espírita ou da cromoterapia ou da cristalterapia, que fogem totalmente da finalidade do Espiritismo.
A Casa Espírita não é uma clínica alternativa. Não é lugar onde toda experiência nova deve ser colocada em execução. Tenho certeza de que aqueles que adotam esses métodos novos não conhecem as bases kardequianas e, ao conhecerem-nas, nunca as vivenciaram.
Temos todo o material revelado pelo mundo espiritual nestes tantos anos de codificação, no Brasil e no mundo, pela mediunidade incomparável de Chico Xavier; as informações que vieram pela notável Yvonne do Amaral Pereira; por Zilda Gama e por tantos médiuns nobres conhecidos e desconhecidos.
Então, se alguém prefere a Apometria, divorcie-se do Espiritismo. É um direito! Mas não misture para não confundir. A nossa tarefa é de iluminar, não é de eliminar. O espírito mau, perverso, cruel é nosso irmão na ignorância. Poderia haver alguém mais cruel do que o jovem Saulo de Tarso? Ele havia assassinado Estevão a pedradas, havia assassinado outros, e foi a Damasco para assassinar Ananias. Jesus não o colocou numa cápsula espacial e disparou para o infinito. Apareceu a ele! Conquistou-o pelo amor. “Saulo, Saulo, por que me persegues?” pode haver maior ternura nisso? E ele tomado de espanto perguntou: “Que é isto?” “Eu sou Jesus, aquele a quem persegues”. E ele, então, caiu em si. Emmanuel ensina que o termo “caindo em si” significa que a capa do ego cedeu lugar ao encontro com o ser profundo. Ele despertou, e graças a ele nós conhecemos Jesus pela sua palavra, pelas suas lutas, pelo alto preço que pagou, apedrejado várias vezes, jogado por detrás dos muros nos lugares do lixo, foi resgatado pelos amigos e continuou pregando.
Então, os espíritos perversos merecem nossa compaixão e não nosso repúdio. Coloquemo-nos no lugar deles.
Não temos nada contra a Apometria, as correntes mento-magnéticas, aquelas outras de nomes muito esdrúxulos e pseudocientíficos. Mas, como espíritas, nós deveremos cuidar da proposta Espírita.
Na minha condição de Espírita, exercendo a mediunidade por mais de 60 anos, os resultados têm sido todos colhidos na árvore do amor e da caridade e a nossa mentalidade espírita não admite ritual, gestual, gritaria, nem determinados comportamentos.
* Transcrito do Programa Presença Espírita, da Rádio Boa Nova, a partir de palestra de Divaldo Pereira Franco.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Abortamento
Em que momento acontece o milagre da vida? Em que instante o sopro Divino passa a animar o corpo daquele novo ser que logo surgirá na Terra?
A resposta a essas perguntas sempre inquietou a Humanidade. Debruçaram-se sobre ela filósofos, religiosos e cientistas. Apenas a religião oferece certezas.
O mais interessante é que essas certezas são muito semelhantes, o que indica que as diversas tradições religiosas, ao redor do Mundo, guardam entre si muitas coisas em comum.
Por exemplo, quase todas as religiões ensinam que a vida inicia no momento da concepção.
Naquele momento em que o espermatozóide fecunda o óvulo, inicia-se o mais complexo e comovente processo: a formação de um novo corpo humano.
E, asseguram os religiosos, é nesse instante sublime que o Espírito se une ao corpo em formação.
Por isso, também, todas as religiões são unânimes em reprovar o aborto. A única exceção é quando a gravidez ameaça a vida da mãe. E isso também é uma unanimidade entre todas as crenças.
Ora, se é assim, se todas as religiões humanas desaconselham o aborto, por que a Humanidade insiste no abortamento?
O que faz com que pai e mãe escolham matar seu filhinho? O que nos move em direção a um ato que vitima uma criatura frágil e desprotegida?
Resposta: nosso egoísmo. Quando nos vemos em uma situação que ameaça nosso conforto, em geral nos defendemos escolhendo uma atitude defensiva.
O problema é quando a nossa atitude defensiva viola os direitos dos outros. E isso, definitivamente, acontece quando se faz um aborto.
Sim, porque no silêncio do ventre cresce um corpo que já tem dono. Será a morada de um Espírito imortal, abrigará um filho de Deus.
Quantas vezes nós, os que acreditamos em Deus, pensamos que aquele corpo em formação é a morada de um irmão nosso? Um ser especial que as mãos de Deus depositaram em nosso colo?
E como recebemos essa vida nova? O que fazemos com o Divino presente que nos chega às mãos? Será certo sufocá-lo quando está ainda tão frágil e pequenino?
Não. A vida pede proteção, amparo.
Em todos os países e idiomas do Mundo, a maternidade é louvada como sublime. Não podemos, em nome da modernidade, corromper os valores morais e éticos que herdamos. A lei natural é a do progresso. Jamais de retrocesso.
Hoje, o discurso de muita gente é que a mulher deve ter poder de decisão sobre seu corpo.
A legalização do aborto é tratada como avanço dos direitos humanos, pois se alega que a medida vai proteger as mulheres pobres que fazem abortos ilegais.
São argumentações equivocadas. Partem de princípios errôneos.
Primeiro, porque o feto é um ser à parte. Ele não faz parte do corpo da mãe.
E cabe a pergunta: De que direitos humanos falamos? Direitos humanos são para garantir práticas éticas e não para legalizar o assassinato de crianças.
E se desejamos, de fato, proteger as mulheres pobres das conseqüências de um aborto ilegal, deveríamos investir em saúde e educação.
São antídotos. Mulheres informadas usarão métodos contraceptivos, terão acesso a informação. Não precisarão matar para evitar uma gestação.
Por outro lado, onde fica o amor que tanto falamos e aspiramos sentir? O exercício do amor nos recomenda cuidar dos mais fracos. Que amor é esse que se desvencilha da vida que floresce?
O amor acolhe, abençoa, fortalece. É a expressão máxima da solidariedade. O amor, com certeza, não mata.
Redação do Momento Espírita.
A resposta a essas perguntas sempre inquietou a Humanidade. Debruçaram-se sobre ela filósofos, religiosos e cientistas. Apenas a religião oferece certezas.
O mais interessante é que essas certezas são muito semelhantes, o que indica que as diversas tradições religiosas, ao redor do Mundo, guardam entre si muitas coisas em comum.
Por exemplo, quase todas as religiões ensinam que a vida inicia no momento da concepção.
Naquele momento em que o espermatozóide fecunda o óvulo, inicia-se o mais complexo e comovente processo: a formação de um novo corpo humano.
E, asseguram os religiosos, é nesse instante sublime que o Espírito se une ao corpo em formação.
Por isso, também, todas as religiões são unânimes em reprovar o aborto. A única exceção é quando a gravidez ameaça a vida da mãe. E isso também é uma unanimidade entre todas as crenças.
Ora, se é assim, se todas as religiões humanas desaconselham o aborto, por que a Humanidade insiste no abortamento?
O que faz com que pai e mãe escolham matar seu filhinho? O que nos move em direção a um ato que vitima uma criatura frágil e desprotegida?
Resposta: nosso egoísmo. Quando nos vemos em uma situação que ameaça nosso conforto, em geral nos defendemos escolhendo uma atitude defensiva.
O problema é quando a nossa atitude defensiva viola os direitos dos outros. E isso, definitivamente, acontece quando se faz um aborto.
Sim, porque no silêncio do ventre cresce um corpo que já tem dono. Será a morada de um Espírito imortal, abrigará um filho de Deus.
Quantas vezes nós, os que acreditamos em Deus, pensamos que aquele corpo em formação é a morada de um irmão nosso? Um ser especial que as mãos de Deus depositaram em nosso colo?
E como recebemos essa vida nova? O que fazemos com o Divino presente que nos chega às mãos? Será certo sufocá-lo quando está ainda tão frágil e pequenino?
Não. A vida pede proteção, amparo.
Em todos os países e idiomas do Mundo, a maternidade é louvada como sublime. Não podemos, em nome da modernidade, corromper os valores morais e éticos que herdamos. A lei natural é a do progresso. Jamais de retrocesso.
Hoje, o discurso de muita gente é que a mulher deve ter poder de decisão sobre seu corpo.
A legalização do aborto é tratada como avanço dos direitos humanos, pois se alega que a medida vai proteger as mulheres pobres que fazem abortos ilegais.
São argumentações equivocadas. Partem de princípios errôneos.
Primeiro, porque o feto é um ser à parte. Ele não faz parte do corpo da mãe.
E cabe a pergunta: De que direitos humanos falamos? Direitos humanos são para garantir práticas éticas e não para legalizar o assassinato de crianças.
E se desejamos, de fato, proteger as mulheres pobres das conseqüências de um aborto ilegal, deveríamos investir em saúde e educação.
São antídotos. Mulheres informadas usarão métodos contraceptivos, terão acesso a informação. Não precisarão matar para evitar uma gestação.
Por outro lado, onde fica o amor que tanto falamos e aspiramos sentir? O exercício do amor nos recomenda cuidar dos mais fracos. Que amor é esse que se desvencilha da vida que floresce?
O amor acolhe, abençoa, fortalece. É a expressão máxima da solidariedade. O amor, com certeza, não mata.
Redação do Momento Espírita.
Masturbação - Mitos e Consequências Segundo o Espiritismo
Jorge Luiz Hessen
Muitas pessoas vivem angústias profundas em torno das
diretrizes comportamentais na área sexual e isso é compreensível em
nosso estágio de humanidade. Por isso, escrevemos alguns argumentos
sobre o tema, a fim de que possamos com a Doutrina espírita aprender um
pouco mais.
O Espiritismo explica baseado no
livre-arbítrio, no percurso de vidas anteriores e na evolução moral de
cada um, como estes assuntos devem ser tratados. Lembrando sempre que
“cada caso é um caso e muito particular”.
Uma dessas
ansiedades é a masturbação, que segundo Sigmund Freud, é envolvida em
muito preconceito, graças ao dogmatismo religioso que estigmatiza a
sexualidade. Vai distante a época em que se decretava que a masturbação
conduzia à loucura e ao inferno. Normal no adolescente que está
descobrindo a sexualidade, freqüente nos corações solitários, o problema
é que ela favorece a viciação, aguçando o psiquismo do indivíduo com
sensualidade avivada. Por outro lado, obsta a sublimação das energias
sexuais, quando as circunstâncias nos convocam à castidade,
incitando-nos a canalizá-las para as realizações mais enobrecedoras.
Vale dizer: há uma energia sexual que precisa ser controlada, não
necessariamente através da prática sexual, mas direcioná-la a outras
atividades, inclusive a prática da caridade.
A consciência
nos sussurra que relação sexual presume dois parceiros. O autoerotismo
não deixa de ser uma busca de “prazer” egoísta, por isso mesmo, toda
prudência é imprescindível. Na área sexual, urge vigilância permanente,
pois, na maioria das vezes ao se masturbar, a criatura não está tão
solitária como imagina. Espíritos das sombras, viciados no sexo, muitas
vezes estimulam este vício solitário, prejudicando casais quando o
parceiro opta por masturbar-se. Entretanto, mister considerar que cada
caso é um caso, sem desconsiderar jamais que o equilíbrio e a disciplina
mental precisam ser alcançados. Por isso o Espírito Emmanuel, no livro
"O Consolador", questão 184, psicografado por Chico Xavier, orienta-nos
que, “ao invés da educação sexual pela satisfação dos instintos, é
imprescindível que os homens eduquem sua alma para a compreensão sagrada
do sexo”.
O uso indevido de qualquer função sexual produz
distúrbios, desajustes, carências, que somente a educação do hábito
consegue harmonizar. Afinal, o homem não é apenas um feixe de sensações,
mas, também, de emoções, que podem e devem ser dirigidas para objetivos
que o promovam, nos quais centralize os seus interesses, motivando-o a
esforços que serão compensados pelos resultados benéficos.
A vida saudável na esfera do sexo decorre da disciplina, da
canalização correta das energias, da ação física: pelo trabalho, pelos
desportos, pelas conversações edificantes que proporcionam resistência
contra os arrastamentos da sensualidade, auxiliando o indivíduo na
conduta. Muitas pessoas consideram o prazer apenas como sendo uma
expressão da lascívia, e se esquecem daquele que decorre dos ideais
conquistados, da beleza que se expande em toda parte e pode ser
contemplada, das encantadoras alegrias do sentimento afetuoso, sem
posse, sem exigência, sem o condicionamento carnal.
Será
que devemos depreender que o Espiritismo proíbe toda a atividade
sexual?! De modo algum. O Espiritismo nada proíbe. Deixa ao
livre-arbítrio, à decisão consciente de cada um a atitude a tomar.
Limita-se a dar orientação e a demonstrar que atitudes mal tomadas dão
intranquilidade e insatisfação e coloca-nos perante a realidade e
vantagens do uso consciente da vida.
A Doutrina Espírita
apresenta a sexualidade despida da conotação religiosa dogmática que
consagrou o sexo pecaminoso, sujo, proibido e demoníaco. Todavia, não
legitima o enquadramento da sociedade atual que consubstanciou o sexo
como objeto de consumo, devasso e trivial. A proposta espiritista é da
energia criadora que necessita estar sedimentada pela lógica e pelo
sentimento, pelo respeito e entendimento, pela fidelidade e amor, a fim
de propiciar a excelsitude e a paz, ou seja, “Um sexo para a vida e não
uma vida para o sexo!”
Para Emmanuel, no livro “Vida e
Sexo”, diante das proposições a respeito do sexo, é justo sintetizar-se
todas as digressões possíveis nas seguintes normas: não proibição, mas
educação; não abstinência imposta, mas emprego digno, com o devido
respeito aos outros e a si mesmo; não indisciplina, mas controle; não
impulso livre, mas responsabilidade. Fora disso, é teorizar
simplesmente, para depois aprender ou reaprender com a experiência. Sem
isso, será enganar-nos, lutar sem proveito, sofrer e recomeçar a obra da
sublimação pessoal, tantas vezes quantas se fizerem precisas, pelos
mecanismos da reencarnação, porque a aplicação do sexo, ante a luz do
amor e da vida, é assunto pertinente à consciência de cada um.
Ninguém se burila de um dia para outro. Conversões religiosas
exteriores não alteram, de improviso, os impulsos do coração. Achamo-nos
muito longe da meta para alcançar o projeto de acrisolamento sexual. A
rigor, nenhum de nós consegue se conhecer tão exatamente, a ponto de
saber, hoje, qual o tamanho da experiência afetiva que nos aguarda no
futuro. Não há como penetrarmos nas consciências alheias e cada um de
nós, ante a Sabedoria Divina, é um caso particular, no que tange ao
amor, reclamando compreensão. Em face disso, muitos de nossos erros
imaginários na Terra são caminhos certos para o bem, ao passo que muitos
de nossos acertos hipotéticos são trilhas para o mal de que nos
desvencilharemos, um dia!...
A energia sexual, como
recurso da lei de atração, na perpetuidade do Universo, é inerente à
própria vida, gerando cargas magnéticas em todos os seres, face às
potencialidades criativas de que se reveste. À medida que a
individualidade evolui, passa a compreender que a energia sexual envolve
o impositivo de discernimento e responsabilidade em sua aplicação. Por
isso mesmo, deve estar controlada por valores morais que lhe garantam o
emprego digno, seja na criação de formas físicas, asseguradora da
família, ou na criação de obras beneméritas da sensibilidade e da
cultura para a reprodução e extensão do progresso e da experiência, da
beleza e do amor, na evolução e burilamento da vida no Planeta.
Nas ligações afetivas terrenas encontramos as grandes alegrias.
No entanto, é também dentro delas que somos habitualmente defrontados
pelas mais duras provações. Embora não percebamos de imediato,
recebemos, quase sempre, no companheiro ou na companheira da vida
íntima, os nossos próprios reflexos.
Analisemos o
matrimônio, por exemplo, que pode perfeitamente ser precedido de doçura e
esperança, mas isso não impede que os dias subsequentes, em sua marcha
incessante, tragam aos cônjuges os resultados das próprias criações que
deixaram para trás. Parceiro e parceira, nos compromissos do lar,
precisam reaprender na escola do amor, reconhecendo que, acima da
conjunção corpórea, fácil de concretizar, é imperioso que a dupla se
case, em espírito - sempre mais em espírito -, dia por dia. Até porque
extinta a fogueira da paixão na retorta da organização doméstica,
remanesce da combustão o ouro vivo do amor puro, que se valoriza, cada
vez mais, de alma para alma, habilitando o casal para mais altos
destinos na Vida Superior, até porque é o Espírito quem ama e não o
corpo, de sorte que, dissipada a ilusão material, o Espírito vê a
realidade que transcende à vida física.
Urge considerar
que a Vontade de Deus, na essência, é o dever em sua mais alta expressão
traçado para cada um de nós, no tempo chamado "hoje". E se o "hoje" jaz
viçado de complicações e problemas, a repontarem do "ontem", depende de
nós a harmonia ou o desequilíbrio do "amanhã". Destarte, o instinto
sexual, exprimindo amor em expansão incessante, nasce nas profundezas da
vida, orientando os processos da evolução.
Importa
considerar que diante do sexo, não nos achamos, de nenhum modo, à frente
de um despenhadeiro para as trevas, mas perante a fonte viva das
energias em que a Sabedoria do Universo situou o laboratório das formas
físicas e a usina dos estímulos espirituais mais intensos para a
execução das tarefas que esposamos, em regime de colaboração mútua,
visando ao rendimento do progresso e do aperfeiçoamento entre os homens.
Cada homem e cada mulher que ainda não se angelizou ou que
não se encontre em processo de bloqueio das possibilidades criativas, no
corpo ou na alma, traz, evidentemente, maior ou menor percentagem de
anseios sexuais, a se expressarem por sede de apoio afetivo. É
claramente nas lavras da experiência, errando e acertando e tornando a
errar para acertar com mais segurança, que cada um de nós - os filhos de
Deus em evolução na Terra - conseguirá sublimar os sentimentos que nos
são próprios, de modo a nos erguer, em definitivo, para a conquista da
felicidade celeste e do Amor Universal.
* Jorge Luiz Hessen é
natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. É Servidor Público
Federal lotado no INMETRO de Brasília; Formação acadêmica: Licenciado em
Estudos Sociais e Bacharel em História, Escritor (dois livros
publicados) Jornalista e articulista com vários artigos publicados na
Revista O médium de Juiz de Fora, Reformador da FEB, O Espírita de
Brasília (pertence ao conselho editor), do Jornal da Federação de Mato
Grosso e do Jornal da FEDERAÇÃO DO DF. Artigo gentilmente oferecido para
publicação no site do Instituto Espírita Batuíra de Saúde Mental.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Leis cármicas e felicidade
Nas experiências psicológicas de amadurecimento da personalidade, na busca da plenitude, a incerteza é indispensável, pois que ela fomenta o crescimento, o progresso, significando insatisfação pelo já conseguido.
A certeza significaria, neste sentido, a cessação de motivos e experiências, que são sempre renovadores, facultando a ampliação dos horizontes do ser e da vida.
Graças à incerteza, que não representa falta de fé, os erros são mais facilmente reparáveis e os êxitos mais significativos. Ela ajuda na libertação, pois que a presença do apego, no sentimento, gera a dor, a angústia. Este último, que funciona como posse algumas vezes, como sensação de segurança e proteção noutras ocasiões, desperta o medo da perda, da solidão, do abandono.
A verdadeira solidão — a mente estar livre, descomprometida, observando sem discutir, sem julgar — é um estado de virtude — nem memória conflitante do passado, nem desespero pelo futuro não delineado — geradora de energia, de coragem.
Normalmente, o medo da solidão é o fantasma do estar sozinho, sem ninguém a quem submeter ou a quem submeter-se.
A insegurança porque se está a sós assusta, como se a presença de outra pessoa pudesse evitar os fenômenos automáticos de transformação interna do ser — fisiológica e psicologicamente — impedindo os acontecimentos desagradáveis ou a morte.
É necessário que o homem aprenda a viver com a sua solidão — ele que é um cosmo miniaturizado, girando sob a influência de outros sistemas à sua volta — com o seu silêncio criativo, sem tagarelice, liberando-se da consciência de culpa, que lhe vem do passado.
Destinado à liberdade plena, encontra-se encurralado pelas lembranças arquivadas nos painéis do inconsciente — sua memória perispiritual — que lhe põem algemas em forma de ansiedade, de fobias, de conflitos.
Mesmo quando os fatores da vida se lhe apresentam tranquilizadores, evade-se do presente sob suspeitas injustificáveis de que não merece a felicidade, refugiando-se no possível surgimento de inesperados sofrimentos.
A felicidade relativa é possível e se encontra ao alcance de todos os indivíduos, desde que haja neles a aceitação dos acontecimentos conforme se apresentam. Nem exigências de sonhos fantásticos, que não se corporificam em realidade, tampouco o hábito pessimista de mesclar a luz da alegria com as sombras densas dos desajustes emocionais.
As heranças do passado espiritual ressumam em manifestações cármicas, que devem ser enfrentadas naturalmente por fazerem parte da vida, elementos essenciais que são constitutivos da existência.
Como decorrência de uma vida anterior dissoluta, surgem os conflitos, as castrações, os tormentos atuais, da mesma forma, como efeito do uso adequado das funções se apresentam as bênçãos de plenificação.
As leis cármicas, que são o resultado das ações meritórias ou comprometedoras de cada indivíduo, geram, na economia evolutiva de cada um, efeitos correspondentes, estabelecendo a ponderabilidade da Divina Justiça, presente em todos os fenômenos da Natureza e da Criação.
O fatalismo cármico da evolução é a felicidade humana, quando o ser, depurado e livre, sentir-se perfeitamente integrado na Consciência Cósmica.
A sua marcha, embora as aparências dissonantes de alegria e tristeza, de saúde e doença, está incursa no processo das conquistas que lhe cumpre realizar, passo a passo, com dignidade e com iguais condições delegadas aos seus semelhantes, sem protecionismos vis ou punições cerceadoras Indevidas, que formaram os arquétipos de privilégio e recusa latentes em muitos.
A resolução para ser feliz rompe as amarras de um carma negativo, face ao ensejo de conquistar mérito através das ações benéficas e construtivas, objetivando a si mesmo, o próximo e a sociedade.
Nenhum impedimento na vida à felicidade.
Uma resignação dinâmica ante o infortúnio — a naturalidade para enfrentar o insucesso negando-se a que interfiram no estado de bem-estar íntimo, que independe de fatores externos — realiza a primeira fase do estágio feliz.
O amadurecimento psicológico, a visão correta e otimista da existência são essenciais para adquirir-se a felicidade possível.
Na sofreguidão da posse, o homem supõe que o apego às coisas, a disponibilidade de recursos, a ausência de problemas são os fatores básicos da felicidade e, para tanto, se empenha com desespero.
Ao desfrutar deles, porém, dá-se conta que não se encontra ditoso, embora confortado, porque é no seu mundo íntimo, de satisfação e lucidez em torno das finalidades da vida, que estão os valores da plenitude.
As leis cármicas são a resposta para que alguns indivíduos fruam hoje o que a outros falta, ao mesmo tempo são a esperança para aqueles que lutam e anelam, acenando-lhes a Possibilidade próxima de aquisição dos elementos que felicitam.
Idear a felicidade sem apego e insistir para consegui-la; trabalhar as aspirações íntimas, harmonizando-as com os limites do equilíbrio; digerir as ocorrências desagradáveis como parte do processo; manter-se vigilante, sem tensões nem receios e se dará o amadurecimento psicológico, liberativo dos carmas de insucesso, abrindo espaço para o auto-encontro, a paz plenificadora.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
A rotina
A natural transformação social, decorrente dos efeitos da ciência aliada à tecnologia a partir do século 19, impôs que o individualismo competitivo pós renascentista cedesse lugar ao coletivismo industrial e comunitário da atualidade.
A cisão decorrente do pensamento cartesiano, na dicotomia do corpo e da alma, ensejou uma radical mudança nos hábitos da sociedade, dando surgimento a uma série de conflitos que irrompem na personalidade humana e conduzem a alienações perturbadoras.
Antes, os tabus e as superstições geravam comportamentos extravagantes, e a falsa moral mascarava os erros que se tornavam fatores de desagregação da personalidade, a serviço da hipocrisia refinada.
A mudança de hábitos, no entanto, se liberou o homem de algumas fobias e mecanismos de evasão perniciosos, impôs outros padrões comportamentais de massificação, nos quais surgem novos ídolos e mitos devoradores, que respondem por equivalentes fenômenos de desequilíbrio.
Houve troca de conduta, mas não de renovação saudável na forma de encarar-se a vida e de vivê-la.
De um lado, a ciência em constante progresso, não se fazendo acompanhar por um correspondente desenvolvimento ético-espiritual, candidata-se a conduzir o homem ao niilismo, ao conceito de aniquilamento.
Noutro sentido, o contubérnio subjacente, apresenta um elenco exasperador de áreas conflitantes nas guerras e ameaças de guerras que se sucedem, nas variações da economia, nos volumosos bolsões de miséria de vária ordem, empurrando o homem para a ansiedade, a insegurança, a suspeição contumaz, a violência.
A fim de fugir à luta desigual — o homem contra a máquina — os mecanismos responsáveis pela segurança emocional levam o indivíduo, que não se encoraja ao competitivismo doentio, à acomodação, igualmente enferma, como forma de sobrevivência no báratro em que se encontra, receando ser vencido, esmagado ou consumido pela massa crescente ou pelo desespero avassalador.
Estabelece algumas poucas metas, que conquista com relativa facilidade, passando a uma existência rotineira e neurotizante, que culmina por matar-lhe o entusiasmo de viver, os estímulos para enfrentar desafios novos.
Rotina é como ferrugem na engrenagem de preciosa maquinaria, que a corrói e arrebenta.
Disfarçada como segurança, emperra o carro do progresso social e automatiza a mente, que cede o campo do raciocínio ao mesmismo cansador, deprimente.
O homem repete a ação de ontem com igual intensidade hoje; trabalha no mesmo labor e recompõe idênticos passos; mantém as mesmas desinteressantes conversações: retorna ao lar ou busca os repetidos espairecimentos: bar, clube, televisão, jornal, sexo, com frenético receio da solidão, até alcançar a aposentadoria.. – Nesse ínterim, realiza férias programadas, visita lugares que o desagradam, porém reúne-se a outros grupos igualmente tediosos e, quando chega ao denominado período do gozo-repouso, deixa-se arrastar pela inutilidade agradável, vitimado por problemas cardíacos, que resultam das pressões largamente sustentadas ou por neuroses que a monotonia engendra.
O homem é um mamífero biossocial, construído para experiências e iniciativas constantes, renovadoras.
A sua vida é resultado de bilhões de anos de transformações celulares, sob o comando do Espírito, que elaborou equipamentos orgânicos e psíquicos para as respostas evolutivas que a futura perfeição lhe exige.
O trabalho constitui-lhe estímulo aos valores que lhe dormem latentes, aguardando despertamento, ampliação, desdobramento.
Deixando que esse potencial permaneça inativo por indolência ou rotina, a frustração emocional entorpece os sentimentos do ser ou leva-o à violência, ao crime, como processo de libertação da masmorra que ele mesmo construiu, nela encarcerando-se.
Subitamente, qual correnteza contida que arrebenta a barragem, rompe os limites do habitual e dá vazão aos conflitos, aos instintos agressivos, tombando em processos alucinados de desequilíbrios e choque.
Nesse sentido, os suportes morais e espirituais contribuem para a mudança da rotina, abrindo espaços mentais e emocionais para o idealismo do amor ao próximo, da solidariedade, dos serviços de enobrecimento humano.
O homem se deve renovar incessantemente, alterando para melhor os hábitos e atividades, motivando-se para o aprimoramento íntimo, com conseqüente movimentação das forças que fomentam o progresso pessoal e comunitário, a benefício da sociedade em geral.
Face a esse esforço e empenho, o homem interior sobrepõe-se ao exterior, social, trabalhado pelos atavismos das repressões e castrações, propondo conceitos mais dignos de convivência humana, em consonância com as ambições espirituais que lhe passam a comandar as disposições íntimas.
O excesso de tecnologia, que aparentemente resolveria os problemas humanos, engendrou novos dramas e conflitos comportamentais, na rotina degradante, que necessitam ser reexaminados para posterior correção.
O individualismo, que deu ênfase ao enganoso conceito do homem de ferro e da mulher boneca, objeto de luxo e de inutilidade, cedeu lugar ao coletivismo consumista, sem identidade, em que os valores obedecem a novos padrões de crítica e de aceitação para os triunfos imediatos sob os altos preços da destruição do indivíduo como pessoa racional e livre.
A liberdade custa um alto preço e deve ser conquistada na grande luta que se trava no cotidiano.
Liberdade de ser e atuar, de ter respeitados os seus valores e opções de discernir e aplicar, considerando, naturalmente, os códigos éticos e sociais, sem a submissão acomodada e indiferente aos padrões de conveniência dos grupos dominantes.
A escala de interesses, apequenando o homem, brinda-o com prêmios que foram estabelecidos pelo sistema desumano, sem participação do indivíduo como célula viva e pensante do conjunto geral.
Como profilaxia e terapêutica eficaz, existem os desafios propostos por Jesus, que são de grande utilidade, induzindo a criatura a dar passos mais largos e audaciosos do que aqueles que levam na direção dos breves objetivos da existência apenas material.
A desenvoltura das propostas evangélicas facilita a ruptura da rotina, dando saudável dinâmica para uma vida integral em favor do homem-espírito eterno e não apenas da máquina humana pensante a caminho do túmulo, da dissolução, do esquecimento.
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O homem integral - Joanna de Ângelis
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